23.10.08
20.10.08
Apetece-me chorar

Desde o dia da consulta que fiz o que sabia e mais um bocado valente para não pensar na espera da biópsia, para viver a vida com um sorriso, para curtir a minha Filha, para trabalhar e rir.
Fui muito bem atendida (consulta das 21:30 às 23:30!), nada me doeu e muito me foi explicado.
Vim de lá bastante serena, com uma receita de antibiótico, anti-inflamatório, pílula (para controlo da mama) e vitaminas.
Deixei lá bastante dinheiro, um pouco do medo e dois pedacinhos de mim para biópsia: papanicolau e líquido do caroço.
5ª feira sei os resultados, 5ª feira a minha vida pode mudar, 5ª feira poderei chorar de alegria ou de tristeza, dor e desespero.
Quanto mais os dias passam, mais a ansiedade se apodera de mim e me corrói, violentamente, por dentro.
Dou por mim a ponderar os vários cenários e o nó da garganta fica mais e mais apertado.
Dou por mim a querer falar e a não ter o meu cara-metade disponível para me ouvir.
Dou por mim a forçar uma conversa, pequenina-pequenina, e a ouvir palavras e comentários que magoam e fazem sofrer, que desorientam e me fazem sentir mais perdida ainda.
Dou por mim a olhar para a minha Filha e a ter medos horríveis, (ir)racionais, sufocantes, desesperantes, ao mesmo tempo que de alento, porque ela é o meu bem mais precioso... e quero crescer com ela, lado a lado e não longe dela, frágil ou uma sem a outra.
Hoje não consegui trabalhar! Não consegui desligar desta espera, deste medo, desta angústia.
Estou impaciente, irritadiça, triste, só, angustiada.
Valha-me algumas pessoas que me rodeiam e o sorriso da minha Filha, que o marido anda mesmo "distante" (será a maneira de reagir?), a mana continua a muitos kms de viagem e os Pais vão amanhã passar uma semana fora.
Só me apetece chorar, tanto é o medo e a angústia!
E já choro por quem tem câncro da mama, pois ainda que o resultado da biópsia venha normal, estou sensibilizada na pele para mais uma doença que pode bater a qualquer porta e da qual se sofre, tantas vezes, em silêncio.
14.10.08
Apavorada!

É como estou, depois de ter detectado um "caroço", ter feito eco e ter sido encaminhada para o serviço de cirurgia daqui do hospital.
Uma vez mais não confio, uma vez mais quero ser bem atendida e sem enganos e... lá vou eu a uma consulta (privada) a Coimbra.
À minha volta, pessoas (des)conhecidas vão tendo cancro da mama ou de outros órgãos.
À minha volta, pessoas (des)conhecidas vão padecendo desta doença cada vez mais jovens.
À minha volta, pessoas (des)conhecidas vão morrendo, sendo cortadas ou vencendo.
Na minha cabeça paira um misto de esperança que não seja nada maligno, com uma angústia enorme de que o seja.
Pairam mil e um pensamentos, mil e uma imagens, mil e um receios, mil e uma esperanças, mil e uma incógnitas.
O coração ficou apertadinho quando o notei, ficou feliz quando fiz a eco (mais que um, mas "nada de especial, estás com sorte: é só esvaziar pelo desconforto!"), voltou a tremer quando mostrei ao médico de família e ele me encaminhou para o hospital, disse não dever ser nada, mas ser necessário confirmar e... quase paralisa quando olho para a minha Filha.
Há muitas mulheres com nódulos, caroços e afins que são isso mesmo e nada mais, sem consequências, com necessidade de controlo (que angustia, claro!), mas que não passa daí.
Terei essa sorte?!
O nó na garganta é grande!
24.9.08
Mãe e Fibromialgia
Segunda-feira acordei meia cansada, como já é hábito, mas a catraia mexia-se e remexia-se na cama, ali mesmo ao lado, e já começava a palrar, por isso… alvorada!
Fomos até à sala, brincámos, fizemos a nossa “saudação ao dia”, inventada num belo dia de sol e que se tem mantido, vai um biberon, arroto, bolsar um pouquinho e vem o sono. Aproveito o embalo que lhe dou e embalo-me também a mim, acabando por me deixar “escorregar” pelo sofá com ela a dormir em cima de mim. Que bom!!!
Depois da soneca das duas (eu tipo cão de guarda, com um olho aberto e outro fechado), umas voltas pela casa, um telefonema à minha Mãe, pôr a mesa para o almoço, mais um biberoni e chega-se à hora de almoço.
Algo me estava a incomodar, mas não estava com clareza de pensamento suficiente para discernir o que era, até que me volto a lembrar do telefonema à Mãe, da sua voz apagadita, do facto de já não ver a neta há uns dias e decido (verdadeiro impulso!) preparar-me e à E. para fazermos uma visita à Avó.
A surpresa funcionou, ainda que um pouco a saca-rolhas, que ela estava mesmo xoxita e ponderou não ir ter com as colegas/amigas onde tinham combinado. Mas nada como um telefonema e dizer “Anda lá, que nós já cá estamos!”. Em poucos minutos encontrámo-nos e surge a pergunta: “O que te deu?”.
- Apeteceu-me e olha que com muita força! E acho que à E. também, digo a sorrir.
Acabo por acrescentar: “Viemos fazer uma surpresa à Avó que ela anda meia em baixo e nós demos conta, certo, filhota?”
As “Avós emprestadas” também surgem e foi lindo de ver a baba interior que para ali ía, as três debruçadas no carrinho. Teve direito a foto e tudo!
Vamos lanchar todas, temos direito a duas prendas giraças e cheias de carinho, damos mais uma voltinha e levamos a Avó a casa.
No carro, do banco da frente para o de trás, torço-me toda e pergunto, finalmente:
- Como estás, Mãe? Que se passa? Que me escondes?
- Ando cansada, filha…
- Sim... Mas não é só, pois não? Sabes que eu já te conheço um bocadinho… e pisco-lhe o olho.
A E. dormia ao seu lado, calmita.
- Eu tenho fibromialgia, filha!
Não reagi acho que com nenhum músculo da cara e permaneci o ouvido que senti esta minha Mãe que eu tanto amo estava a precisar.
- Já se andava a desconfiar de há um tempo para cá, mas confirmou-se umas semanas antes da E. nascer…
- Sei pouco sobre a doença, Mãe. Explica-me um pouco melhor.
- Está tudo ligado: ossos, dores de cabeça fortes, falta de qualidade do sono, dores em todo o corpo, querer fazer e não conseguir, rigidez muscular e pode afectar a memória.
O seu tom de voz era tão triste como o seu olhar, que ía resvalando para o ovinho da E.
- Mãe, não estás a pensar que vais ser menos Avó por isso, pois não? Ou tenho que te bater? e pisco olho de novo.
- Não, mas… Queria ajudar a tomar conta dela e não consigo como queria, não posso… E custa-me ver-te nessa angústia de Ama vs Berçário, porque vejo que o que desejavas era que ela ficasse comigo.
- Era o ideal, claro, mas Mãe, tu és uma Avozona e vais ficando com ela sempre que podes, o que é o principal. Nunca imaginei que tomasses conta dela a tempo inteiro e muito, mas mesmo muito, Mãe, me ajudaste no início e continuas a ajudar!
Falámos um pouco mais sobre a doença, o livro que a Maria Elisa escreveu com um médico e… o facto de a minha Mãe ainda não ter contado ao meu Pai (a mana vive longe, até compreendo).
- Mas eu ainda estou bem, isto vai sendo avaliado, tem altos e baixos… diz em tom de me despreocupar e denoto algum arrependimento em ter-me contado.
- Mãe, vai tudo correr pelo melhor e nós estamos aqui! Fizeste bem em contar. Amo-te muito e tu sabes!
Lá foi para casa e eu segui com o carro, rua abaixo, a caminho da minha casa, com um nó na garganta.
A E. continuava a dormir, mas no caminho acordou. Em casa tinha o maridão constipado, mas quando chego só as luzes acesas. Ligo-lhe.
- Onde estás?
- Com os fulanos do condomínio, à procura da fuga de água. Porquê?
- Precisava de ti!
- Mas é agora que está toda a gente em casa, para se poderem fazer os testes necessários.
- Ok, tudo bem. Mas quando puderes vem, sim?
Dou um beijo enorme à E., acaricio-lhe o cabelo e tiro-a do ovo. Dou-lhe um abraço imenso e sai-me da boca frase de tantas vezes “Amo-te muito, Filha!”
Faz um cocó, limpo-a já com água corrente, dou-lhe banho, a seguir o biberon e tento adormecê-la.
Quando o maridão chega ainda ela lutava contra o sono e peço-lhe para ficar ele um pouco com ela. Começa o berreiro e lá vou eu. Em poucos minutos cala-se e adormece.
Nesse dia a net tinha avariado, cá em casa. Queria muito fazer uma valente pesquisa sobre a fibromialgia, para lá de tratar de coisas de trabalho.
Acabo por ir a casa de um vizinho, pedincho uns minutos frente ao écrã e dou por mim muito séria, muito sem reacção.
Ainda há muito pouca informação sobre a doença. Ainda se estudou pouco. Ainda é também tabu. Enquanto leio algumas (poucas) coisas, penso na minha Mãe e nos problemas de saúde que já teve até hoje. Apetece-me chorar, mas não consigo! Mil e uma coisas me passam pela cabeça, referentes ao presente, ao passado e ao futuro.
Volto para casa e finalmente conto ao maridão, que me aguardava.
Falamos um pouco, explico e, de repente, lembramo-nos os dois do mesmo: a minha Mãe começou a escrever “as suas memórias” (chamemos-lhe assim) para a E.. Agora, entendo-o de outra forma, que não dói menos!
Nessa noite praticamente não dormi, não liguei para casa dos meua Pais pela noite, nem dei sinal no dia seguinte pela hora de almoço, como às vezes acontece. Fugiam-me as palavras e era dia de levar a E. pela segunda dolorosa vez a casa da Ama.
À hora de almoço, choro um pouco, sem me dar conta que o estava a fazer.
Na hora que a filhota lá ficou sozinha (deixei-a a dormir, daí ter custado menos), fui à florista onde costumo ir e peço-lhe para me fazer um ramo simples, um “miminho bem especial”, com 5 rosas brancas.
Passei em casa dos meus Pais e ofereci-o à minha Mãe, com um abraço bem apertado!
Passei em casa dos meus Pais e ofereci-o à minha Mãe, com um abraço bem apertado!
10.9.08
Núvem da Infertilidade

Porque é uma realidade cada vez maior e tantas vezes devastadora.
Porque tanta e tanta gente não tem noção.
Porque dei hoje um pulo à APF e estou em dívida convosco, a quem sempre estarei ligada de coração e braços abertos.
Porque é bom partilhar.
Porque fico feliz da palavra "ESPERANÇA" ser a mais forte!
Nota: Em breve volto a este meu cantinho. Apetece-me e estou de bem com a Vida!
29.8.08
Sol de pouca dura...

Sol de pouca dura... mas lá fora o sol brilha e eu insisto em não o ver!
Sinto-me novamente em baixo, cansada, com dificuldade em dormir e sem vontade de sair de casa... e farta de cá estar, também.
Cansada dos dias rotineiros que persistem em existir e eu em deixá-los permanecer assim.
Desorientada também com a falta de perspectivas profissionais, após a licença de maternidade, e sem iniciativa para inverter a situação.
Insegura com mil e uma coisas!
A passar pelos dias e pelo seu potencial imenso de cara baixa, lágrimas nos olhos, nó na garganta, com uma tristeza que me toma conta de todo o peito (todo o corpo?!) por não estar a reagir como desejo e sempre sonhei. Por não estar a aproveitar (nem deixar aproveitar) a minha filha como, acima de tudo, ela merece.
Muitos momentos não vejo "a luz ao fundo do túnel" e sinto-me um fardo, uma falhada, perdida num caminho que não conheço.
Há uns tempos uma amiga disse-me "Tens duas hipóteses: podes olhar para trás, daqui a 5 ou 10 anos e pensar: Consegui dar a volta! Fiz mil e uma coisas, expus-me aos meus mais íntimos medos, sofri que nem uma condenada, mas consegui... ou podes ver o contrário...".
Ela, como outras Amigas, acreditam que consigo várias coisas. A verdade é que... me falta a mim acreditar e isso está-me a matar aos pouquinhos.
Destas palavras tenho-me lembrado muito e já me fizeram arrebitar algumas veezs, mas não ultimamente, o que me deixa mais em baixo, mais de rastos, mais "vencida" e revoltada comigo mesma.
Hoje, agora, acabei por aqui verter palavras e emoções que me vão na alma e no coração. Sem contar.
Talvez me esteja a fazer bem.
A verdade é que tenho é de sair de casa e ir viver. Urgentemente!
Uma vez mais o medo. O medo de não conseguir! Mas para o saber há que tentar!
Primeiro vou ter de vencer a inércia que se está a apoderar de mim. Vou TENTAR vencê-la, que o sofrimento é grande, para todos!
25.8.08
Hoje

Hoje sinto-me tããão bem!
Desde que tive a minha filhota que tenho andado bastante cansada e muito mais desorganizada do que já sou por natureza.
Quase três meses depois, sinto que tive um dia em que "quem comandou as tropas" fui eu, sem ter ajudas externas, consegui fazer várias tarefas em casa com a minha deliciosa na espreguiçadeira a ouvir atentamente as minhas explicações e paleio (sem chorar e com direito a alguns sorrisos!), demos dois passeios ao ar livre (um deles numa zona nova, lindíssima de verde e água), estivemos com todos os Avós e conhecemos mais uma Tia-Avó.
Não me sinto cansada, não me sinto deprimida, não me sinto incapaz, não me sinto "uma merda de mãe".
Pelo contrário: sinto-me Mãe!, com tudo o que a palavra implica! Sinto-me completa ou algo parecido.
A minha pequenita já dorme.
Hoje faço eu "o turno da noite", ainda tenho de tirar leite (sim! 15 dias depois, voltei a poder dar-lhe o meu leite. Felizmente não secou até ao fim e dou-lhe um biberon de leite meu por dia!!) e fazer algumas coisas cá em casa.
A temperatura está excelente e vou dormir com umas belas "frinchas" do estor abertas, para me sentir mais fresca ainda.
Já tenho "programa" para amanhã e para 4ª feira e vou dar o meu melhor para que sejam dias tão agradáveis e serenos como o de hoje.
A verdade é que, independentemente de serem ou não... o dia de hoje foi muito especial!
28.7.08
Tenho andado
Angel of Mine
Child of my heartTenho andado fugida
Tenho andado sem tempo livre
Tenho andado sem cabeça
Quase dois meses se passaram e a vontade de vir aqui descrever muitos momentos, vitórias e angústias tem sido muita, mas vamos passando pelo tempo e ele não espera, como um combóio que apita e segue para a paragem seguinte, a fazer "pouca-terra, pouca-terra!".
Durante estas semanas tenho vivido muitas das maiores alegrias da minha vida, assombradas por algumas angústias e sofrimento. Hoje? Sinto-me muito melhor, mais capaz e menos assustada, mais mentalizada com algumas situações, o que me ajuda a viver mais em pleno o novo amor da minha vida, a minha nova família, a minha nova condição de Mãe.
A E. nasceu lindamente dia 6 de Junho, pelas 11:49. Media 48 cm e pesava 3,160Kg.
Cheguei à Maternidade com 8 cm de dilatação (Ganda maluca! Ou corajosa?), pois não queria passar por todos os protocolos hospitalares, como ficar deitada, acelerarem o parto, ter 30 mãos a avaliar a dilatação, epidural e afins.
Como sabia que a E. estava bem posicionada, na véspera segui para Coimbra e ficámos em casa de uma Amiga. Já ía em trabalho de parto, sabia-o, mas não sabia em que fase. Durante toda a noite o meu companheiro de viagem dormiu, acordando de vez em quando para dizer "Se precisares eu estou aqui!". Eu acenava que não, pois sabia que a sua ajuda era levar-me de imediato para a Daniel de Matos, por isso... em silêncio e nas posições mais estapafúrdias fui avançando no trabalho de parto. As contrações tornavam-se mais claras e mais fortes, o rolhão (parecia-me e depois confirmei) saía aos poucos e tive necessidade de alguém que me compreendesse e ajudasse.
Liguei a uma Amiga e com ela fui comunicando, via telemóvel, noite fora. Foi a minha companheira, a minha força, o incentivo de que precisava e o dia foi clareando.
Contactei outra Amiga e outra luz se acendeu no meu esforço, outra força se juntou a mim e à minha filha. Éramos três a ajudá-la a preparar-se para nascer!
A voz, as palavras, as mensagens, a partilha de uma contração via telemóvel foram o que precisávamos e que nunca poderei agradecer devidamente, tal o carinho e gratidão num momento tão-tão especial!
Entretanto o cansaço começou a tomar alguma conta de mim e tentei ficar deitada. Pareceu que as contrações diminuiram de intensidade, mas eis que oiço um estoiro (literalmente) e me rebenta o saco. Colchão, tapetes, chão, corredores, casa-de-banho, toalhas, escadas, banco do carro, caminho até à maca das urgências, roupa nem falar! Impossível descrever, impossível prever tanto, mas tanto líquido.
Às 11h saio de casa da Amiga (com todos em estado de sítio) e em 15 minutos estamos na Maternidade. Da minha boca só saía: "Vai depressa, ...! Vai depressa!" e ele lá ía ao volante, com uma tranquilidade aparente, mas comigo a orientar o caminho.
Ao chegar às urgências ligo aos Pais:
- A Mãe?
- Não está. Foi... "
- Esquece, esquece. Vai nascer! É agora! É agora! É agora!"
Não sei quantas vezes disse isto, mas o meu Pai diz que foram muitas! Desliguei de rompante, entro nas urgências, sou observada e oiço um berro. "Esta tem de ficar, haja cama ou não. 8 cm!"
Vou para a sala de partos e entro em período expulsivo, que pareceu durar uma eternidade e eu não ser capaz, mas que resultou com a E. a nascer e eu a olhar o meu cara-metade e dizer: "Consegui!", "Conseguimos!!".
Esteve sempre ao meu lado, e das poucas vezes que tive para recuperar fôlego (foram poucas, diga-se), olhava para ele e perguntava, ofegante: "Estás bem? Estás bem?"
A minha obstetra apareceu na sala a meio desta fase e fez-me bem vê-la. Tinha muitas vozes de comando e não me conseguia concentrar. Gritei como uma verdadeira bezerra e dizia: "Não consigo! Não consigo!"
Um dizia "Puxe!", outro "Não grite!", outro "Como é que faz quando tem prisão de ventre?" (a este respondi: "Na vertical!!!"), outra "Tenha calma!", outra "Assim não vamos lá!", outro "Olhe que está a fazer sofrer o bebé. Controle-se!" e ainda outra vozinha "Se quer agarrar alguma coisa tem aí a mão do marido. Não me parta é a minha!".
No final apercebi-me que uma pessoa me deu os parabéns, depois outra, seguida de outra e mais outra e outra e outra... Tinha tido n estagiários a assistir e nem tinha dado conta que era tanta gente!
Enquanto me cosiam (sim, não me safei da episiotomia, que bem me fez sofrer dias a fio), a minha filha estava com o Pai e uma enfermeira numa salinha ao lado.
Por mais que perguntasse: "Já posso ficar com ela?", a resposta era sempre a mesma: "Tem de ficar aqui que está mais quentinho. É só mais um bocadinho!"... mas pareceu uma eternidade!!
O maridão ía e vinha: "Ela é parecida contigo!". Mandava um sms, tirava-lhe fotografias e voltava: "Tem as unhas tão grandes!" e eu a pensar: "Quero abraçá-la, acarinhá-la, beijá-la, vivê-la! O calor do meu corpo não é menor que o do raio daquela sala. Tragam-ma, bolas!". Mas aguardei, apesar de perguntar mais 30 vezes "Já posso?"
Finalmente veio para mim! Misto de sensações, peito de fora e eis que ela atraca de imediato! Nem tive tempo para pensar, pois quando dei conta estava a ser deliciosa e delicadamente "sugada". Uma das melhores sensações da minha vida!!!
E tudo estava bem connosco!!
Três dias depois faço a viagem de regresso a casa e começa o cansaço, a desorientação, o stress, a insegurança.
Sempre soube que um bebé não se limita a comer, dormir e fazer xixi/cocó, mas houve muita coisa nova demais para mim, a juntar às dores que insistiam em manter-se da episiotomia. Quando a E. adormecia eu "gania" com dores e fiquei bastante dependente do maridão e da minha Mãe nos primeiros dias.
Entretanto a odisseia dos mamilos a doerem, o não saber se havia de "ceder" aos pedidos constantes da E. para mamar, os telefonemas novamente às Amigas, o não ter ninguém na mesma cidade que falasse comigo cara-a-cara e me acalmasse (sem ser marido e Mãe).
Uns dias a minha Mãe ficou, outros senti-me mais forte e voltou para casa.
Entretanto passou-se um mês e tudo parecia começar "a rolar". Dar a mama já se fazia de "mama às costas", a E. começou a fazer noites de 3 a 6 horas, mas eu... não conseguia dormir!
Dia após dia sentia-me mais fraca, com náuseas, com uma ansiedade brutal a tomar conta de mim.
O maridão começou a trabalhar, eu a sair um pouco de carro com a E. (após a revisão pós-parto, onde ainda me tiraram 3 pontos. Eu bem que me queixava!), mas a insegurança e o medo de falhar a aumentarem e a tomarem conta de mim.
Dia 16 de Julho, à noitinha, chorei e solucei horas a fio agarrada ao maridão. Partilhei os meus medos sem vergonha, os meus pensamentos mais íntimos e tremi, com o coração acelerado e apertadíssimo. Dormi, exausta, 1 hora! Na manhã seguinte não tinha força para me levantar, desfazia-me em lágrimas e em medos.
Senti que perdi o controlo da situação e a exaustão tinha tomado conta de mim.
Tive medo de colapsar, de morrer, de não acompanhar a minha filha, de ser internada, de, de, de...
Nesse dia amamentei pela última vez!
Por indicação médica comecei a fazer um tratameto que me impedia de dar de mamar (que foi mais uma das minhas conquistas e tanto prazer e bem me fazia e à E.). Doeu (ainda dói!!), mas foi a única alternativa que se viu e, começo a acreditar, que tinha.
Entre a E. ter mama ou ter Mãe...
Durante o dia tirei todo o leite que pude e fui congelando. Parecia que anda acreditava que não ía passar ao leite de fórmula e dei de mamar mais duas vezes, até tomar a medicação.
Foi tão bom quanto doloroso: amo a minha filha, ultrapassei as fases chatas da amamentação (mamilos doridos, etc) e adorávamos as duas a hora da mama. O peso dela esteve sempre óptimo, o que era um orgulho para mim!
Nos primeiros biberons chorei, chorei muito! Até porque eu continuava a ter muito leite, estava mesmo ali à mão e eu não podia pôr a mama de fora e dar-lhe. Bombear para aliviar o peito passou a ser um suplício, pois o leite que saía era muito, mas era despejado no ralo da banca da cozinha.
Uma semana e pouco depois já lhe dou o biberon com um sorriso quase tão feliz como lhe dava de mamar e estou feliz por ela se ter adaptado ao leite de fórmula e os intestinos estarem a funcionar bem. Partilho a tarefa com o maridão (que faz as noites, para eu poder fazer o tratamento da insónia e tem sido um Paizão!) e a minha Mãe (que tem sido uma ajuda preciosa! Mãe a dobrar, mesmo!).
Muito mais há para escrever, mas faz-se tarde e tenho de dormir. A E. já dorme, depois de uma banhoca, leitinho, algumas cólicas e colinho. Teve direito a um passeio por sítios verdes, ao final da tarde, com os avós maternos e aqui a Mãe.
Como é que ela é? Sou suspeita, mas costumo dizer que "Para lá de saudável, tivémos a sorte de ser tão bonita!" E... cheira tão bem!! O meu último acto antes de me enfiar na cama: cheirá-la :O)
Até breve!
11.6.08
NASCEU!
4.6.08
A chocar, chocar, chocar...
Dias 28 de Maio e 3 e Junho foram dias de consulta: o 1º ainda no Espaço Fertilidade, o 2º já na Maternidade Daniel de Matos.
Ok, foram também dias de mudanças de lua, mais uma razão para estar "alerta" quase as duas noites inteiras que antecederam as consultas...
Dia 28 ía animada, convicta que não estava ainda o parto para os dias seguintes, caprichei um pouco na roupita e na aparência em geral e aí fomos nós em ambiente de boa disposição.
A Dr.ª Elvira gostou do que viu (inclusivé a minha maior tranquilidade/segurança) e só foi "mazita" no toque, pois tenho o colo do útero posterior.
Análise urina ok, dúvidas e questões e mais uma sintonia: nem eu nem ela estamos com pressa que a bebé nasça, por isso "Deixe-a lá estar, que a Maternidade está em obras e estamos com menos camas!"
Ficou nova consulta marcada para dia 3, já na DM (pois ela estaria de serviço) e uma análise a uns streptoccocus malandros que fomos entregar de imediato e ficámos de levantar dia 3, antes da consulta... ou antes, quis ça?!
A semana decorreu bem. Com umas noites melhores que outras em termos de sono e dorzitas pelos tendões do útero, dei algumas voltas, comprei a faixa pós parto, vimos cortinados para o quarto da piolha, estivemos com amigos, almocei com os meus Pais, falei com um enfermeiro obstetra e fiquei um poco mais aliviada com algumas questões (a sua disponibilidade ao telefone e, se der no momento, será total para me acompanhar no TP), ri a bom rir com o que considerámos um exagero na partida da Selecção de Poretugal para a Suíça e dei muito, muito miminho à minha filhota e à minha barriga.
Quase todos os dias tirava nem que fosse 1 foto, pois nunca sei quando será o último dia desta gravidez.
Na 2ª feira( dia 2) começou o nervoso miudinho: consulta no dia seguinte, na maternidade, ficar já por Coimbra? Haverá alguma dilataçãozita? Já pesa tanto, a catraia! Ai, ai!
Resultado: encafuada em casa todo o dia, a matutar, a acalmar, a "navegar" um pouco pela net, a pensar, pensar!
E dia 3 lá fomos nós, ainda aqui a minha pessoa gravidola.
Andei pela casa a vaguear e a fazer as coisas muito devagar, não só pela falta de agilidade, mas porque parecia que sentia que já não voltaria a ela grávida.
Voltei a "pôr-me bonita", estava um sol lindão e aí fomos nós.
Chegámos mais tarde do que tinhamos previsto na véspera, a consulta demorou mais porque envolveu registo (coisa que me stressa por um lado, sempre que vejo algo que me parece possa ser menos bom), a análise ao bichinho deu negativa e na observação aí vai a miúda passar por 3 "enfiadelas de mão", pois a médica não conseguia chegar ao fugidio colo posterior.
"Relaxe!"
"Ok, ok. Peço desculpa! Deixe-me só respirar fundo!", respondi entre a 2ª e a 3ª tentativa de toque.
Mole, curto e fechado. Imprevisível, portanto, se a minha filhota se vai manter cá dentro, feliz e contente, até sábado (que é quando a médica está de serviço todo o dia).
No máximo, na próxima 3ª feira, dia 10, tenho de lá voltar, depois de ela entrar de serviço, às 21h.
Mas o meu instinto diz-me que até lá temos filhota cá fora.
Quero muito, e acima de tudo que ela esteja bem, mas a verdade que lá vou falando com ela a tentar que aguarde até sábado.
Sinto outra confiança e já algum à vontade com a Dr.ª Elvira e acho que serei mais bem compreendida se lhe pedir para não me acelerarem o parto ou enfiarem demasiado cedo na sala de partos. Pelo menos assim vou acreditando que será se for ela a acompanhar-nos.
Na 3ª à noite vi que tinha uma bela manchoca castanha na cueca e vai de dizer sozinha "Pronto!" e, com alguma calma, pensar no que fazer, decidir não ligar logo ao maridão, pensar num banho e em comer primeiro e ligar a uma amiga.
Assim foi: da amiga, liguei à enfermeira amiga da DM e daí à médica, que me confirmou ter sido da observação. Ambas me reforçaram para estar alerta para outros sinais e cá estou: alerta!
Ontem quase nada a declarar, hoje uma micro-gelatina suavemente acastanhada. Será o rolhão?
O facto é que tencionava passar a tarde deitada (para não forçar nadinha, com os olhos postos em sábado!!), mas não parei quieta todo o dia. Roupas, louça, arruma, leva, traz, baixa, levanta, banhoca, net, tirar mais umas medidas, comer, sei lá!
Sinto o peso maior, parece-me que a barriga está um pouco mais descida e por vezes pareço não distinguir entre a E. (nome provisório? Daí ainda não o escrever!) a mexer ou o útero a contrair.
Após o almoço não me apetecia nada que o maridão fosse trabalhar!
Queria-o aqui comigo, nestes que sinto serem os últimos dias (horas?) de grávida.
Entretanto, vem uma amiga passar um pouco. Por incrível que pareça, nem sei se me apetece ou não: sei que me apetece estar no ninho, a chocar, chocar, chocar... ao mesmo tempo que na esperança de que nasça só sábado, corra tudo bem e o sol continue a brilhar nas nossas vidas!
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